Luis Cajero: Rituais

Luis Cajero começou a escalar em 1999, ainda no secundário, numa pequena parede artificial de dez metros onde aprendeu a fazer os primeiros movimentos em top rope. A realidade mexicana, nessa altura, pouco oferecia a um jovem escalador que queria aprender. Não havia revistas nem manuais, apenas um punhado de páginas de internet e pequenos grupos fechados de pessoas que iam descobrindo as coisas por si mesmas. Os métodos de treino eram inventados, não herdados, muitas vezes passados de boca em boca e apurados por tentativa e erro. Dessa escassez nasceu uma capacidade de desenrasque e adaptabilidade, e foi nela que Cajero, alguns anos mais tarde, foi apresentado ao bloco por um amigo. Nunca mais olhou para trás.
No entanto, levou anos a perceber como poderia viver do que realmente gostava de fazer. Cajero licenciou-se em engenharia mecânica, o caminho seguro que a família esperava, e antes de iniciar o seu percurso profissional, desapareceu por dois anos, de mochila às costas desde o centro do México pela América Central acabando na Colômbia com uma travessia de veleiro, sem tocar na rocha durante todo esse tempo. Trabalhou como engenheiro numa das maiores empresas da América Latina, era bem pago e estava profundamente infeliz, até que em 2012 se despediu de vez — o que ainda hoje considera ter sido a melhor decisão da sua vida.











Luis a abraçar o Jaguar em Sabanilla, Guanajuato - México | Autor: Carlos Steck
O que se seguiu foram vinte e sete anos de escalada, em que grande parte desse tempo foi investido não em blocos abertos, mas em rocha que nunca ninguém tinha tocado. Ao longo desse tempo Cajero desenvolveu algumas das melhores zonas de bloco do México, entre elas: El Realejo, no estado de San Luis Potosí de onde é natural; Peñoles, em Chihuahua, que é hoje uma das maiores pérolas da cena do bouldering mexicano; e Peña de Bernal, em Querétaro. Todas com características bastante distintas e enquadradas em lugares arrebatadores. Admite que desenvolver estas zonas, desde procurar pelas linhas - muitas vezes perdidas no deserto - limpar, construir plaformas para as quedas, envolver-se com a comunidade local, foi dos trabalhos mais significativos da sua vida enquanto escalador. Sempre se sentiu muito mais atraído por fazer aberturas do que por repetir os problemas. Ser o primeiro a escalar algo dá-lhe a oportunidade de também ser o primeiro a compreendê-lo e ter essa conversa silenciosa com aquele pedaço de rocha que nunca ninguém escalou. E isso é algo que, para ele, é quase impossível de replicar.
É nos highballs, porém, que este instinto e sentimento se exponenciam em algo quase religioso. A sua obsessão por blocos altos é antiga, e começou como um ritual de aniversário: todos os anos, um novo bloco por abrir, procurado e escalado como forma de assinalar o tempo. O ritual tornou-se um hábito e o hábito aprofundou-se em filosofia. Um highball coloca o escalador num estado de vulnerabilidade, algures no limiar entre a vida e uma lesão grave, e é precisamente essa vulnerabilidade a que Cajero diz querer regressar, vezes e vezes sem conta, porque lhe oferece a intimidade com a sua própria essência que nada mais consegue oferecer. Nos problemas mais arrojados, prefere culminar essa experiência com o encadene sem crashpads, contudo, diz fazê-lo apenas em linhas que ensaiou durante meses. O perigo não é imprudência; é simplesmente ritual.
Apesar de toda a solidão da sua procura, Cajero passa muito do seu tempo a partilhar o que sabe. Trabalha como treinador, ou mentor como gosta de chamar, e guia, e através do coletivo que fundou, a Secret Brush Society, partilha a sua visão e experiência — a forma mais gratificante, acredita, de deixar uma marca positiva e duradoura nas pessoas à sua volta. A escalada deu-lhe muito, e devolver uma parte disso sempre lhe pareceu a coisa mais natural a fazer.
Tem uma frase que repete muitas vezes: "Estamos todos constantemente a tentar conquistar o inútil, e é nessa busca que as nossas vidas encontram o seu sentido". Os problemas que projeta, a rocha que procura por terrenos remotos e exigentes, nada disso é necessário. Ainda assim, é no desnecessário que encontrou o que o move. A paixão dá profundidade à sua vida, e uma paixão que pode inspirar os outros é uma paixão que perdura. A conquista do inútil acaba, assim, por ser a coisa mais útil que podemos fazer.