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Crónica da Conquista de Oukaïmeden

@joao.selk

No ano da graça de 2026, cinco esforçados companheiros partiram da mui nobre e ilustre cidade de Portus Cale, não em caravela, todavia com o ânimo destemido daqueles egrégios varões lusitanos que o grande Camões imortalizou nos seus versos.

Rumaram às terras de África, onde os blocos anseiam o regresso d’El-Rei Dom Sebastião. Aí, no coração daquelas paragens, encontraram o castigado por Zeus, Atlas, rodeado pelas sentinelas alvas e nevadas, que sustinha os altos céus enquanto beijado por caminhos e aldeias berberes recônditas. Não ansiavam ouro, nem especiarias, nem rota mercantil, procuravam a glória de vencer com as mãos a rocha ocre avermelhada que os fitava desafiadora, arte fermosa que os nossos avós haveriam de cantar, se dela houvesse conhecimento em tempo ido.

Grandes foram o assombro e o maravilhamento dos aventureiros ao descobrir que aquelas rochas, talhadas por milénios de vento e oceanos bravios, ostentavam tais figuras que pareciam obra de mão abençoada, rendas e espirais escritas em pedra, qual velha ninfa houvesse gravado um poema ou cifra d’idades remotas. Durante sete sóis e sete luas, os cinco ilustres penduraram-se em fissuras e paredões suspensos sobre vales profundos e sem memória, onde um passo equívoco os havia de lançar ao encontro d’encostas adamastorianas.

De semblante contorcido pelo esforço e músculos tensos como cordas de arco bem armado, marcaram de branco a rocha virgem da cordilheira. Entre brados vitoriosos e de frustração, repousaram nos cumes, a contemplar vales de tamanho tal que nem o olho benigno de Camões lograria divisar-lhes o fim; e, nas noites mais frias, buscaram abrigo entre as escamas do atlas, encolhidos contra o vento e a neve que teimava em cair.

Não houve espada desembainhada, nem bandeira cravada em terra alheia, houve conquista assaz - a de cada movimento vencido e a de cada bloco que resistira tentativa após tentativa e enfim se rendera à perseverança dos cinco assinalados. Tal conquista foi infindavelmente coroada d’um erguer de braços em júbilo, qual navegador saúda o regresso à bem-aventurada terra firme.

Um ensaio de João Figueiredo