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Carles de Diego: O Lugar #2

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Foi a ler a The Project Magazine que ficámos a conhecer o trabalho de Carles pela primeira vez. Num artigo sobre Hoya Moros escrito em 2017, descreve o local como o "Paraíso de Verão" e como o "Hotel das Mil Estrelas", em referência ao céu estrelado durante as noites lá passadas — após escalar e, por vezes, enquanto se escalava. Usaria as mesmas palavras mais tarde quando nós, sem qualquer intenção, lhe pedimos para falar dos seus lugares preferidos para blocar em Espanha.


Carles começa por nos indicar as duas zonas de bloco mais cosmopolitas de Espanha. Se tiver uma semana ou duas, ou até um par de meses, aconselha rapidamente Albarracín. É a zona de bouldering mais internacional de Espanha, conhecida pelo seu arenito vermelho. Aqueles tetos e extraprumos merecem pelo menos uma visita na vida. Na sua opinião, é o segundo melhor sítio de bloco na Europa, atrás de Fontainebleau, e algures entre os cinco melhores do mundo.

Depois, La Pedriza, a cinquenta quilómetros de Madrid: uma enorme extensão de granito que deixou os seus amigos finlandeses, na primeira visita, a afirmar que havia mais rocha ali do que em toda a Finlândia. Mais de três mil problemas de bloco. Mais de trinta mil vias, de desportiva e clássica, de um e vários largos. Seriam precisas três vidas, ou talvez mais, para se conseguir escalar tudo. Ainda nos arredores de Madrid, tanto El Escorial como Zarzalejo merecem uma visita. Próximas uma da outra, mas bastante diferentes no tipo de linhas e no estilo.

Luisito Canijo no Alicates em Quebrantaherraduras, La Pedriza
Javi Pec no famoso Atila de Hoya Moros, Candelario
Lidia Latre no Duende Verde em Hoya Moros, Candelario
Kaja no clássico Sisha Nulera do setor Mezquita em Albarracín
Carles de Diego Boguñá no El Transformador em El Roao, Villanueva del Rosario
Manu Béjar no Portucuco em Hoya Moros, Candelario
Javi Pec no Atila em Hoya Moros, Candelario

Luisito Canijo no Alicates em Quebrantaherraduras, La Pedriza

Mas o sítio que reserva para os mais experientes, para quem já esteve em Fontainebleau, em Rocklands, nos zonas de bloco da Suíça e do norte de Itália, nos clássicos dos Estados Unidos, é Hoya Moros. Há poucos lugares como este. É bloco alpino, onde se carrega tudo o que se precisa às costas, e está, no seu entender, entre os cinco melhores lugares de sempre, em qualquer parte do mundo. Só parece exagerado, até se ir; é simplesmente de outro mundo.

Já tentou uma vez descrever a sensação, e nunca encontrou melhores palavras. Hoya Moros é um antigo circo glaciar a 2.050 metros, situado acima da aldeia pitoresca de Candelario, duas horas e meia a oeste de Madrid. A sua época começa precisamente quando as outras terminam. Quando as vagas de calor de verão levam as zonas altas à volta de Madrid acima dos quarenta graus, Hoya Moros abre e os escaladores sobem quase todos os fins de semana. Deixa-se o carro no início do trilho em Candelario e a aventura começa ali: duas horas a subir a carregar tudo, casaco de penas, saco-cama, comida, crashpad, sapatilhas. Não é preciso carregar água, porque o rio Cuerpo de Hombre nasce do antigo glaciar. As regras são rigorosas e o lugar exige respeito: sem fogueiras, sem tendas, sem perturbar as vacas que pastam nos prados, sem lixo.

Admite que a maioria dos escaladores adora Hoya Moros por causa da aproximação que nem todo o bloqueiro tem coragem de fazer, e pelos sítios de bivaque onde desconhecidos se tornam amigos à volta de uma garrafa de vinho transportada a custo até lá acima; pelas manhãs de sexta-feira passadas a mandar mensagens a amigos para alinhar horas de chegada e reservar o melhor acampamento; pela disciplina de escalar com intensidade mas nunca de forma imprudente — quando o socorro chega de helicóptero, uma lesão não é opção — e por se aprender os poucos sítios onde o telemóvel tem sinal; pelas sessões divididas em duas pela "siesta" espanhola, e por escalar de lanterna noite dentro para fugir ao calor do dia; por dormir no Hotel das Mil Estrelas, com o céu como teto, e pelos pores do sol, com os Los Hermanitos, as duas torres de granito visíveis de qualquer ponto do vale, a montar guarda e a lembrar que este é terreno alpino. Acima de tudo, os escaladores adoram a profunda sensação de liberdade lá em cima, num pequeno paraíso selvagem de blocos erráticos espalhados por prados verdes.

Nada disto existiria sem a equipa local, amigos como Manuel Béjar e Mariano López "Cuco", que desenvolveram a zona durante anos e continuam a trabalhar para que seja o paraíso de verão que é. Bloco, natureza e liberdade. O que mais, pergunta Carles, é que realmente precisamos?