Carles de Diego: O Caminho #1

Nascido em Barcelona em 1970, começou cedo a escalar nas vias perto de casa, com um dos seus melhores amigos. Mas foi por volta dos seus vinte anos que este hobby se tornou algo mais sério, quando Carles de Diego e os seus amigos começaram a percorrer as grandes paredes de largos da Catalunha; Montserrat, Terradets, Vilanova de Meià, trezentos, quatrocentos, quinhentos metros de cada vez. Quanto mais metros, melhores as memórias. Naqueles anos escalou de tudo: desportiva, clássica, gelo, e também bloco. Os blocos, no entanto, chamaram mais alto e, em 1997, a trabalhar em Paris, começou a ir a Fontainebleau sempre que podia. Uma peregrinação que ainda repete todos os outonos, duas semanas entre o arenito.








Javi Pec no Master of Puppets em Rocher d'Avon, Fontainebleau
Seguiu-se um ano nos Estados Unidos e, quando regressou a casa, o trabalho levou-o de Barcelona para Toledo, no coração de Espanha, onde vive há quase 25 anos. Revelou-se um terreno fértil. Toledo fica a cem quilómetros de La Pedriza, o vasto parque nacional de granito, e Madrid está rodeada a norte pelo Sistema Central, uma cordilheira de granito que se estende quase até à fronteira portuguesa. Toda a região é densa em rocha. Desde então, Carles foi concentrando o seu foco no bouldering, tendo Castillo de Bayuela, mesmo ao lado de Toledo, como o seu sítio de eleição.
Quando começou, muito poucos faziam bouldering. A clássica era a disciplina de todos, a escalada desportiva estava a chegar com força, e para a maioria das pessoas o grau era o objetivo. Só os loucos, diz ele, viam o bloco como algo mais do que uma forma de treinar. Tornou-se um deles. O granito do Sistema Central deixa-o escalar quase todo o ano e o bouldering, mais do que qualquer outra coisa, é simplesmente o que tem gostado de fazer durante duas décadas. Aliado a isto, Carles é médico e trabalha cinco dias por semana num hospital, e é isso que lhe paga as contas, as viagens e saídas à rocha, mas os fins de semana são para apertar. Conta com mais de vinte boas zonas de bloco num raio de quarenta e cinco minutos a três horas de casa, a escolha depende apenas de como se sente e do que quer naquele dia.
É rápido a dizer que não é um abridor e que não desenvolveu nenhuma zona. Ainda assim, ao longo dos anos, abriu a sua quota-parte e deu uma mão em muitos sítios por toda a Espanha: Castillo de Bayuela, La Pedriza, Albarracín, Bezas, El Escorial, Zarzalejo, Alcolea del Pinar. E é generoso nos agradecimentos a todos os que abraçam o trabalho ingrato: os que exploram, encontram, escovam e abrem os problemas e depois simplesmente os deixam para trás, um legado de blocos para todos os que vêm a seguir.
Apesar de tudo isso, Carles passou estes anos todos a documentar silenciosamente o mundo que ama. O seu blog começou como a versão digital do caderno que os escaladores mantinham antes da internet, só que agora contém mais: mais detalhe, mais histórias e mais fotografias. Atualiza-o religiosamente todas as vezes que sai para escalar. Um amigo disse-lhe uma vez que apostaria que Carles, com o passar do tempo, não iria conseguir manter o blog ativo. Nunca o abandonou. Insiste que não é um profissional, apenas um amador com uma câmara, e, ainda assim as suas fotografias apareceram em pelo menos dezassete guias: Albarracín, La Pedriza, Hoya Moros, Zarzalejo, El Escorial, Burguillo, Candelario e mais, com outras a chegarem a um guia de Fontainebleau em França e Snĕžník na República Checa. As suas imagens foram publicadas nas revistas espanholas Desnivel, Escalar e Grandes Espacios, e na alemã Klettern, incluindo a capa e uma reportagem de dez páginas na edição 2, 2020, "Bouldern in Spanien: 12 Top-Gebiete von Santander bis Gibraltar." Na The Project Magazine, onde o ficamos a conhecer, encontrou uma alegria especial ao poder mostrar as zonas de Espanha a escaladores do outro lado do Atlântico.
Carles escalou por muitos sítios, não só percorreu todo o seu país como também blocou pela Suécia, Alemanha, República Checa, Polónia, Suíça e Itália; e além da Europa, Yosemite e Marrocos. Assim, quando recomenda o que de melhor há em Espanha, sabemos que vem de alguém que tem muito com que comparar. E é com os seus conselhos que continuaremos na Parte #2.