Marta Avilés: Do Arenito ao Granito

Bióloga, educadora e exploradora por natureza, Marta Avilés trocou o arenito vermelho de Albarracín pelo granito de Val Masino, nos Alpes italianos, sem nunca perder a curiosidade que a levou ao bloco há dez anos. Para ela, o bloco sempre foi uma forma de olhar mais longe, para o próximo vale, o próximo bosque, a próxima linha. A sua história move-se entre duas paisagens, o arenito vermelho e o granito alpino. Seja qual for a rocha, essa procura leva-a sempre ao mesmo lugar: horas passadas debaixo de um bloco, à espera do momento em que o impossível, discretamente, se torna possível.








Marta Avilés no Ninfa em Albarracín - Espanha | Autor: Asier Arteaga
Podes levar-nos de volta ao início do teu percurso no bloco? Quando e onde começou tudo, e o que te atraiu no bloco? Como era a comunidade de escalada local nessa altura?
O meu percurso na escalada começou há 10 anos, em 2016. A minha primeira viagem de bloco foi a Crevillente, em Alicante, Espanha. Fui com uns amigos. O ambiente era incrível, toda a gente era super acolhedora, apoiava-me e partilhava as suas dicas e beta.
Percebi logo ali que este seria um desporto completamente diferente de qualquer outro.
Desde então, tens explorado e escalado em muitas zonas diferentes, não só em Espanha mas também no estrangeiro. O que é que no bloco te continua a puxar para a frente, sempre à procura de novas linhas e novos lugares? O que alimenta essa curiosidade e essa vontade de progredir?
Sempre fui uma exploradora nata. Passei algum tempo a viver nos Pirenéus, onde comecei a fazer mais escalada desportiva. Anos mais tarde, decidi mudar-me para Albarracín, onde voltei às minhas raízes no bloco. Foi durante a pandemia, por isso o bloco permitia-me escalar sozinha nessa altura.
Pouco a pouco, fui descobrindo novas zonas de escalada, não só a nível nacional mas também internacional, o que me levou a Val Masino, nos Alpes italianos, onde vivo atualmente. Diferentes tipos de rocha, perspetivas e linhas.
Comecei a escalar os meus primeiros highballs, a subir o meu grau e sempre à procura de novos desafios. Aquela sensação de fluir com a rocha e de chegar ao topo de um bloco. Aquele exato momento em que o impossível se torna possível dá-me sempre uma razão para acreditar em mim.
Não importa se chove, se neva, se está calor ou frio. Há sempre uma razão para ir para o bosque, à procura de novas linhas.
Tens estado envolvida em vários projetos ligados à escalada. Podes contar-nos mais sobre essas experiências? O que te motiva a abraçar algo que vai além do próprio ato de escalar, e o que significa para ti essa ligação mais ampla ao bloco?
Sempre trabalhei com crianças, por isso tive a ideia de criar uma escola de escalada em Albarracín. Era uma forma de apresentar a escalada às gerações mais novas, desfrutando ao mesmo tempo da rocha e da natureza.
Como também sou bióloga, adoro estar ao ar livre e contar histórias sobre plantas, animais, estrelas... E, recentemente, a geminação entre Albarracín e Val Masino foi oficialmente aceite, um projeto bonito para partilhar viagens e experiências de vida, e para ligar pessoas destes dois lugares que me são tão especiais.
Agora que tens passado a maior parte do tempo a fazer bloco em Val Masino, quanto é que a tua pele sente falta de Albarracín?
Na verdade, habituei-me à rocha bastante depressa. Tenho de admitir que, mesmo que o arenito permita sessões mais longas para a pele, é no granito que me consigo expressar verdadeiramente.
Vejo-me como uma escaladora mais técnica do que de força. Além disso, apesar dos meus 1,56 m (-2), o granito dá-me sempre cristais intermédios para resolver os movimentos mais longos.
Podes falar-nos de algumas linhas ou projetos que tenham sido particularmente marcantes para ti, sejam os que já escalaste ou os que ainda estás a trabalhar? O que torna essas linhas especiais?
O meu primeiro grande desafio foi o Eclipse, em Albarracín. Quis escalar aquela linha desde o primeiro dia em que a vi. Passei imenso tempo debaixo daquele bloco, desde não conseguir fazer um único movimento até finalmente o encadear. Provavelmente não estava preparada ao início, mas ensinou-me que com esforço, consistência e perseverança, tudo é possível.
O mesmo aconteceu com o Virus Attak (7C), em Val Masino, o meu primeiro 7C, que tive de limpar da neve e ter paciência com as condições meteorológicas imprevisíveis que se encontram sempre no vale.
Depois veio o meu primeiro 8A, o Scary Christmas, em Gottardo, e mais recentemente o Rythmo (7C+), em Magic Wood.
Nunca imaginei que conseguiria escalar certas linhas, e esta experiência deu-me a confiança para continuar sempre a acreditar.
Sem dúvida, tudo o que acontece nos bastidores é o que verdadeiramente dá sentido a tudo isto.
Pesquisa por @marta.avi para saberes mais.